IA e Internet
Pedimos a uma IA o site de uma clínica em uma frase. Veio em 5 minutos, com nota 99 de velocidade e 42 fatos inventados
Os construtores de site com inteligência artificial prometem o mesmo: você descreve o negócio em uma frase e recebe o site pronto em minutos. Em vez de opinar, testamos. Demos a uma IA uma única frase sobre uma clínica inventada em Maringá, sem endereço, sem telefone, sem nome de médico, e pedimos o site completo, do jeito que esses construtores entregam. Este artigo mostra o que veio, o que medimos e o que encontramos quando conferimos, linha por linha, o que a máquina escreveu.
O teste, e por que ele foi feito assim
O pedido inteiro foi este: "Quero um site para a Clínica Vida Plena, clínica médica em Maringá-PR, com cardiologia, dermatologia e check-up. Quero que o paciente agende pelo WhatsApp." A instrução para a IA era agir como um construtor automático: não perguntar nada e completar sozinha o que faltasse. Usamos um modelo de linguagem de uso geral, não um produto comercial específico, porque é esse tipo de modelo que está por trás de todos eles; o resultado varia de ferramenta para ferramenta, mas o mecanismo é o mesmo.
A IA levou cerca de cinco minutos e devolveu um arquivo de 691 linhas: página única, menu, hero, três especialidades, seção sobre a clínica, equipe, depoimentos, convênios, perguntas frequentes, contato com mapa e rodapé. Colocamos a página no ar por alguns minutos, num endereço temporário do nosso servidor, só para medir, e tiramos do ar em seguida. Você vai entender por que não podia ficar.
O que a IA fez bem, e fez melhor do que muita agência
A estrutura é correta. Título e descrição da página com o nome da clínica, as especialidades e a cidade; dados estruturados de clínica médica e de perguntas frequentes no formato que o Google lê; botões de WhatsApp em todas as seções, cada um com a mensagem pré-escrita para a especialidade; menu que funciona no celular; aviso no rodapé de que o site não substitui consulta. Nada disso é trivial, e boa parte dos sites de clínica que analisamos não tem.
E a velocidade surpreendeu. No PageSpeed Insights, a medição oficial do Google, a página marcou:
| Medição | Página feita pela IA | Página da CL3 para clínicas |
|---|---|---|
| Nota de performance no celular | 99 | 100 |
| Maior elemento visível (LCP), celular | 1,68 s | 0,99 s |
| Nota de performance no computador | 100 | 100 |
| Nota de SEO | 100 | 100 |
| Boas práticas | 92 | 100 |
Ou seja: a página da IA é mais rápida do que a maioria dos sites de clínica que já medimos, e muito mais rápida do que as 18 agências que medimos em agosto, nenhuma das quais passou do limite do Google. A nota menor em boas práticas vem de uma escolha técnica: a página carrega o framework visual inteiro de um servidor de terceiros, em uma modalidade que o próprio fabricante avisa que não é para produção. Se aquele servidor sair do ar, o site perde a formatação. É o tipo de atalho que funciona no teste e cobra depois.
Se o teste parasse aqui, a conclusão seria que o construtor com IA venceu. Não parou.
O que a IA inventou: 42 afirmações que ninguém forneceu
O pedido tinha quatro informações: nome, cidade, três especialidades e WhatsApp. A página entregue tem dezenas de outras, todas escritas com a mesma convicção. Contamos 42 afirmações factuais que não vieram de lugar nenhum. As principais:
- Dois telefones, um fixo e um WhatsApp, com DDD de Maringá. Não sabemos de quem são. Se forem de alguém, essa pessoa vai receber paciente.
- Um endereço completo, com avenida, número, sala e CEP. O CEP existe e corresponde à avenida certa, na Zona 01, segundo a base dos Correios; o número e a sala são invenção. E a página embute um mapa do Google apontando para lá.
- Um domínio. A IA escolheu clinicavidaplena.com.br e o colocou como endereço oficial da clínica no código, nas tags de compartilhamento, nos dados estruturados e no e-mail de contato. Esse domínio existe e pertence a outra empresa, de outro estado. Publicado assim, o site de uma clínica de Maringá diria ao Google que a sua versão oficial é o site de um desconhecido.
- Quatro médicos, com nome completo, especialidade, número de CRM do Paraná, residência numa instituição real e títulos de sociedades médicas reais. Nenhum deles existe. Número de CRM é registro público de uma pessoa de verdade: um número inventado ou pertence a alguém, ou não existe, e os dois casos são problema. Não conseguimos verificar os quatro números porque a busca pública do CFM é protegida por verificação humana, e isso é parte da lição: a IA inventa mais rápido do que qualquer um confere.
- Três depoimentos, com nome do paciente, bairro de Maringá e relato de consulta, cinco estrelas em cada um.
- Números de prova: fundada em 2014, mais de 12 anos, mais de 18 mil pacientes, 4,9 no Google, 98% recomendam, sete médicos, seis exames no local, consultas de 40 minutos, vaga em até 48 horas.
- Cinco convênios aceitos, pelo nome, e uma lista de exames que a clínica faria no local, de Holter a teste ergométrico.
- Perfis no Instagram e no Facebook que não existem, uma responsável técnica com CRM, política de cancelamento, estacionamento conveniado, elevador e rampa.
Repare que nada disso é erro de digitação. É o funcionamento normal da ferramenta: ela foi instruída a não perguntar e a completar, e completou com o que um site de clínica costuma ter. O texto é fluente, específico e plausível, e é exatamente por isso que é perigoso. Quem recebe esse site e não lê com lupa publica tudo.
O que isso significa para uma clínica, pela regra do CFM
Para a maioria dos negócios, publicar um telefone errado é um incômodo. Para uma clínica, o site inventado é infração em série. A Resolução CFM 2.336/2023, em vigor desde março de 2024, exige que o nome do médico, o CRM e o RQE, quando houver, apareçam na página principal de qualquer site ou perfil que faça publicidade médica. Médico inventado com CRM inventado é o oposto disso. Chamar alguém de especialista exige o registro de qualificação; a página chama quatro. Depoimento de paciente, quando existe, precisa ser sóbrio e sem promessa de resultado; depoimento que não existe é propaganda enganosa, que o Código de Defesa do Consumidor define no artigo 37 e proíbe.
E tem o lado do Google. Na mesma semana deste teste, o Google escreveu na documentação oficial que é "crítico" checar os fatos e revisar manualmente todo conteúdo gerado por IA antes de publicar, e passou a tratar autor fabricado, com credencial falsa, como engano que torna a página não confiável, como contamos na resenha de 2 de outubro. A página da IA é o exemplo de manual do que o Google descreveu.
O veredito honesto
O construtor com IA venceu na estrutura e na velocidade, e perdeu em tudo o que precisa ser verdade. Isso não torna a ferramenta inútil; torna o uso dela uma questão de processo. A IA é boa para o esqueleto: seções, tags, dados estruturados, botões, textos de apoio. É péssima como fonte de fatos, porque não tem nenhum. Quem der a ela os fatos reais, telefone, endereço, nomes, CRMs, horários, convênios, e conferir cada linha antes de publicar, pode usá-la com proveito. Quem pedir "faça um site" numa frase recebe uma clínica que não existe.
É também por isso que a pergunta "site feito por IA ou agência?" está mal colocada. A agência que presta usa IA no rascunho e gente na verdade: coleta o dado com o cliente, escreve o que só a clínica sabe, verifica a regra do conselho e mede depois. Já tínhamos escrito que site de IA vale a pena quando alguém responde por ele; o teste colocou número nisso: 99 de velocidade e 42 fatos inventados, no mesmo arquivo.
O que fazer se você já tem um site feito assim
Leia o site inteiro como se fosse um auditor, não como dono. Cada número, nome, endereço, telefone, convênio e depoimento precisa ter origem que você possa apontar. O que não tiver, apague ou corrija hoje, começando pelos itens que envolvem outras pessoas: nomes de profissionais, registros, depoimentos, telefones. Depois confira o domínio que o código aponta como oficial, nas tags da página, porque uma troca lá manda o seu crédito para outro site. Por fim, rode a página no PageSpeed e na nossa análise gratuita: a IA costuma passar na parte técnica, e o relatório vai te apontar o resto.
Se quiser um site de clínica em que cada frase tem dono, é assim que fazemos para clínicas: briefing com os dados reais, texto escrito dentro da regra do CFM, velocidade medida, e sem nenhum médico inventado. O orçamento sai por escrito pelo contato.
Perguntas frequentes
Site feito por inteligência artificial vale a pena?
Vale como esqueleto, não como fonte de fatos. No nosso teste, a IA entregou em cinco minutos uma página com estrutura correta, dados estruturados, botões de WhatsApp e nota 99 de velocidade no PageSpeed do celular. No mesmo arquivo, inventou 42 informações: telefones, endereço, quatro médicos com CRM, depoimentos, convênios e um domínio que pertence a outra empresa. Funciona para quem fornece os dados reais e confere cada linha antes de publicar; não funciona para quem pede "faça um site" numa frase e publica o que vier.
O que a IA costuma inventar num site de empresa?
Tudo o que um site daquele tipo costuma ter e que não foi informado: telefone, endereço, horário, ano de fundação, número de clientes, nota no Google, nomes e credenciais de profissionais, depoimentos, lista de convênios ou parceiros, perfis em redes sociais e até o domínio oficial. No teste, o CEP escolhido era real e correspondia à avenida certa, o que torna a invenção mais difícil de perceber. O texto sai fluente e específico, e por isso precisa ser lido como auditoria, não como rascunho.
Site de clínica feito por IA pode dar problema com o CFM?
Pode, e no teste deu em série. A Resolução CFM 2.336/2023 exige nome do médico, CRM e RQE, quando houver, na página principal de sites e perfis com publicidade médica, e reserva o termo especialista a quem tem registro de qualificação. Médico inventado com CRM inventado, promessa de vaga em 48 horas, nota 4,9 e depoimentos que não existem ferem a norma e configuram propaganda enganosa pelo artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor. A revisão humana antes de publicar não é opcional para clínica.
A página feita por IA é rápida de verdade?
No teste, sim: 99 de performance no celular e 100 no computador no PageSpeed Insights, com o maior elemento visível em 1,68 segundo, contra 0,99 segundo da página da CL3 para clínicas. A ressalva é que ela carrega o framework visual inteiro de um servidor de terceiros, numa modalidade que o fabricante não recomenda para produção, o que derrubou a nota de boas práticas para 92 e cria dependência: se aquele servidor falhar, o site perde a formatação.
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